Oxenti Records completa 21 anos e celebra uma trajetória construída no underground

Oxenti Records completa 21 anos e celebra uma trajetória construída no underground

Chegar aos 21 anos fazendo música independente não é pouca coisa.
São mais de duas décadas entre discos, CDs, K7s, vinis, shows, turnês, banquinhas, zines, amizades, viagens, encontros, perrengues e muita tentativa. Uma trajetória que nunca foi construída a partir de grandes estruturas ou de certezas sobre o futuro, mas principalmente pela vontade de fazer acontecer.

Em 2026, a Oxenti Records completa 21 anos e celebra essa caminhada com uma noite de punk e hardcore em Maceió. Mas o show Oxenti Records Apresenta: 21 Anos de Caos e Paixão, marcado para 10 de outubro, no Rex Bar, é apenas uma parte de uma história que começou muito antes.

A história da Oxenti é também a história de pessoas que decidiram criar seus próprios caminhos dentro da cena independente. Uma história construída entre o Rio de Janeiro e Alagoas, atravessando diferentes cenas, cidades e gerações, sempre com uma atenção especial para aquilo que acontecia e ainda acontece no Nordeste.

Mais do que comemorar uma data, os 21 anos são uma oportunidade para olhar para trás e reconhecer tudo aquilo que foi construído ao longo desse caminho.

21 anos de Oxenti Records: uma história construída no underground

Antes de existir oficialmente como selo, já existia a Oxenti Distro.

Recém chegado ao Rio de Janeiro, Krëbo (Klebinho) começou a circular pelos shows da cidade levando uma banquinha com materiais produzidos por ele próprio em seu ateliê, além de CDs e discos que recebia de amigos e bandas. Entre esses materiais estavam lançamentos que Chehuan, do Confronto, deixava aos seus cuidados quando a banda saía em turnê pela Europa.

A distro era uma maneira de circular música, conhecer pessoas e participar mais ativamente daquela cena. Aos poucos, porém, surgiu a vontade de fazer algo maior.

Foi quando Krëbo se juntou a Gustavo Elsas, o xVermex, e a Oxenti deixou de ser apenas uma distro para se transformar em selo.

A lógica inicial era simples e, ao mesmo tempo, muito próxima daquilo que sempre esteve no centro da cultura DIY: se para assistir às bandas que gostávamos precisávamos viajar, por que não juntar a grana que gastaríamos nessas viagens e trazer essas bandas para tocar na nossa cidade?

Era uma forma de pensar a produção cultural a partir das próprias necessidades. Em vez de esperar que alguém organizasse, financiasse ou criasse as condições necessárias, a ideia era colocar a mão na massa e construir. Foi assim que a Oxenti começou a movimentar shows, lançamentos e encontros no Rio de Janeiro. E foi também assim que começou a se formar uma trajetória que, desde o início, carregava uma preocupação importante: fazer com que as cenas que estavam fora do eixo mais tradicional da música independente também encontrassem caminhos para circular.

O Rio de Janeiro como ponto de partida e o Nordeste como direção

A Oxenti nasceu no Rio de Janeiro e teve uma atuação importante na movimentação da cena underground da cidade durante os anos 2000 e 2010. Mas havia uma particularidade nessa trajetória. Krëbo vinha de Maceió, e essa origem ajudou a direcionar parte importante dos esforços do selo para as bandas e cenas do Nordeste.

Durante muito tempo, era, e em muitos casos ainda é, muito mais comum que bandas Sudestinas viajassem para tocar em estados do Nordeste do que o contrário. As dificuldades financeiras, logísticas e de circulação tornavam muito mais difícil para bandas nordestinas conquistarem espaço em outras regiões do país. A Oxenti buscou fazer esse caminho também no sentido contrário. Levar bandas do Nordeste para outras regiões passou a ser uma das forças que movimentaram o selo, não apenas trazendo essas bandas para tocar no Rio de Janeiro, mas ajudando na construção de lançamentos, turnês e conexões que pudessem fazer essas cenas circularem para além de seus próprios territórios.

Mas a questão nunca foi simplesmente trazer bandas de estados nordestinos para tocar no Rio de Janeiro. A ideia era construir uma circulação em que as cenas pudessem trocar de lugar, influência e experiência. Se durante muito tempo a música independente pareceu funcionar em uma lógica em que as referências saíam dos grandes centros e chegavam às outras regiões, a Oxenti sempre acreditou que essa estrada poderia ter mão dupla.

Uma banda de Maceió pode influenciar uma banda do Rio. Uma banda de Natal pode tocar em São Paulo. Uma banda de Salvador pode lançar um disco por um selo baseado no Sudeste. E, no caminho inverso, bandas, ideias, públicos e experiências também podem voltar para o Nordeste. Não se trata de centro e periferia, mas de fazer a cultura circular: de um centro para outro centro, de uma margem para outra margem, em todas as direções possíveis.

Essa ideia foi aparecendo na prática, muitas vezes sem que houvesse um plano elaborado para isso. Apareceu quando um split juntou duas bandas de estados diferentes do Nordeste. Apareceu quando uma banda saiu de sua cidade para tocar em outra região. Apareceu quando um lançamento feito por um selo do Sudeste ajudou uma banda nordestina a alcançar outros lugares. Apareceu também quando bandas de outras regiões chegaram ao Nordeste e encontraram aqui uma cena disposta a recebê-las, trocar experiências e construir novas relações.

Talvez essa seja uma das coisas mais importantes que a Oxenti aprendeu nesses 21 anos: cenas não precisam apenas receber. Elas também têm muito a oferecer.

Mais de 30 lançamentos físicos e uma história contada em discos

Se existe um patrimônio que ajuda a contar os 21 anos da Oxenti, ele está nos seus lançamentos.

São mais de 30 lançamentos físicos, realizados diretamente pelo selo ou em parceria com outros selos e iniciativas do underground. O primeiro deles foi o CD da banda Nunca Inverno, que marcou ao mesmo tempo o primeiro lançamento da banda e o primeiro lançamento oficial da Oxenti Records.

O OXE001 não foi apenas um número de catálogo. Foi a materialização de uma ideia que, até aquele momento, ainda estava começando a tomar forma.

Depois vieram outros trabalhos importantes, como a demo da banda Vivenciar, que ajudou a construir um importante alicerce político em parte da cena do Rio de Janeiro e também em outros estados. Vieram ainda lançamentos como “Um Dia é Muito Pouco”, da banda A Sangue Frio, de Salvador, e o split entre Mahatma Gangue e Renegades Of Punk.

Este último representa especialmente bem uma das intenções que passaram a acompanhar o selo: criar pontes para que bandas do Nordeste pudessem alcançar outros públicos e participar de circuitos nacionais. O lançamento juntou duas bandas de dois estados diferentes da região, teve uma repercussão importante e ganhou um show de lançamento no Rio de Janeiro. Depois disso, as bandas seguiram para São Paulo, ajudando a abrir caminhos para que aquela circulação continuasse.

Com o tempo, o catálogo cresceu e também se diversificou. O lançamento da banda The Alchemists marcou o início da Oxenti no universo dos discos de vinil. Depois vieram trabalhos de nomes como Lumpen, Parte Cinza, xCLAVAx, Tomar Control, do Peru, Ojne, da Itália, Constrito e muitos outros.

CDs, K7s, vinis, livros e zines fazem parte dessa trajetória. Cada lançamento carrega uma história própria, mas, juntos, esses materiais ajudam a contar uma história maior: a de um selo que escolheu continuar apostando na música independente e na circulação física da produção underground.

[Veja aqui a lista completa de lançamentos da Oxenti Records.]

OXE001: quando o primeiro lançamento quase não aconteceu

Talvez uma das melhores maneiras de entender o espírito que acompanhou a Oxenti desde o começo seja voltar ao primeiro lançamento.

Quando surgiu a ideia de lançar o full album do Nunca Inverno, havia um problema bastante concreto: o dinheiro disponível em caixa não chegava nem perto do necessário para bancar a produção.

A solução encontrada foi dividir os custos entre as duas pessoas que estavam à frente do selo naquele momento, Gustavo e Krëbo. Só que, no meio do processo, Gustavo passou por algumas complicações que acabaram impossibilitando que ele entrasse com a quantia que havia sido combinada.

O acordo com a banda já estava feito. A fabricação já estava em andamento. E o lançamento precisava acontecer. Foi então que Krëbo precisou se desdobrar para levantar a grana necessária.

Durante três meses, manteve três trabalhos simultaneamente para conseguir honrar o compromisso assumido com a banda e com a fábrica. Durante o dia, trabalhava em uma lan house fazendo manutenção de computadores, aproveitando o curso técnico de montagem e manutenção que havia feito. Também trabalhava em uma locadora de filmes em DVD, uma espécie de locadora itinerante, em que os funcionários levavam os filmes até empresas para que os trabalhadores pudessem alugá los. E, nos finais de semana, estava em uma feira de artesanato em Copacabana, vendendo produtos produzidos por ele e por seus familiares.

Foram três meses de correria, três empregos, pouco descanso e a necessidade de fazer uma ideia que já estava em andamento chegar até o fim.

Quando finalmente a caixa chegou pelos Correios, com as mil cópias do primeiro lançamento, todo aquele esforço ganhou uma forma concreta. Ao abrir a caixa, estavam ali os CDs embalados, um ao lado do outro, com a marca da Oxenti impressa no encarte e a identificação:

OXE001.

Era apenas o primeiro lançamento. Mas, naquele momento, já carregava boa parte daquilo que viria a definir a história do selo: coragem, improviso, trabalho, compromisso e a decisão de fazer mesmo quando as condições não eram as ideais.

Outros discos, outras histórias

Alguns lançamentos acabaram marcando a própria continuidade da Oxenti.

O Fase Ruim, da Parte Cinza, por exemplo, surgiu em um momento em que a Oxenti estava parada, sem muita perspectiva de voltar às atividades. Cristiano Onofre, então, fez um convite simples: queria que o CD da banda tivesse o logo da Oxenti Records e perguntou se dava para fazer aquele lançamento. O convite acabou ajudando a colocar o selo novamente em movimento.

Foi mais uma daquelas situações em que as coisas não aconteceram porque havia um grande planejamento. Aconteceram porque alguém apareceu com uma vontade e outra pessoa decidiu dizer sim.

Outro lançamento que carrega um significado especial é Um Fio de Vida no Círculo da Morte, da Constrito. O disco havia sido lançado originalmente em 2001 pela CrimethInc e foi uma obra muito importante para a formação de algumas das pessoas que construíram a Oxenti. Mais de duas décadas depois, o selo participou de uma nova edição em vinil, em parceria com outros selos, com encarte de 36 páginas trazendo as letras completas e uma arte inspirada na xilogravura.

São histórias diferentes, de momentos diferentes, mas que mostram como um catálogo também pode ser uma espécie de memória. Os discos guardam não apenas músicas, mas encontros, amizades, decisões, dificuldades e períodos inteiros da vida de quem esteve envolvido.

Shows: quando o selo também virou movimento

A história da Oxenti não foi construída apenas em discos. Os shows sempre tiveram um papel central.

Show da banda O Inimigo no Rio. Robson Veio em participção especial.

O evento que marca oficialmente o início das atividades da Oxenti aconteceu em 2005 e teve uma programação distribuída por dois dias, com Justiça, Vendetta, de São Paulo, e Ordeal e Vivenciar, do Rio de Janeiro. Um dos shows aconteceu no Leo’s Bar, em Marechal Hermes. O outro foi realizado na Audio Rebel, em Botafogo.

Mais do que apresentar bandas, aqueles shows ajudaram a revelar a força de uma geração de jovens que estava começando a construir seus próprios espaços e sua própria identidade dentro da cena. A Oxenti surgia como selo, mas também como parte de um movimento maior.

Ao longo dos anos, outros shows ficaram marcados nessa trajetória. Um deles foi o Oxenti Trash Festival, que reuniu bandas como Bandana Revenge, Ataque Periférico, Alarme, Bandanos e Discarga. A apresentação do Discarga teve um significado especial: foi o primeiro e único show da banda no Rio de Janeiro.

Também vieram os aniversários do selo. Nos 10 anos, uma nova celebração marcou a trajetória construída até então, com Renegades Of Punk, Time And Distance, The Alchemists e Parte Cinza. Aos 15 anos, a realidade era completamente diferente. Em plena pandemia, os encontros presenciais haviam sido interrompidos, mas a vontade de celebrar permaneceu. A Oxenti realizou uma programação especial em formato de live pelo Instagram, reunindo bandas de diferentes partes do Brasil e também do exterior, com participações de grupos como Eat My Fear, da Alemanha, Tomar Control, do Peru, Ximbra, de Maceió, Trash No Star, do Rio de Janeiro, e Untraps, de São Paulo.

Cinco anos depois, a comemoração dos 20 anos aconteceu em Maceió, reunindo bandas de diferentes estados do Nordeste.

Agora, aos 21, a história volta a se encontrar em Maceió.

Turnês e intercâmbio entre cenas

Ao longo dessas duas décadas, a Oxenti também ajudou a construir turnês de bandas brasileiras e internacionais. Rio de Janeiro, Volta Redonda, Maceió, Recife e outras cidades fizeram parte dessa rede de circulação.

Organizar uma turnê independente nunca foi apenas marcar datas em uma agenda. É encontrar espaços, conversar com produtores, organizar deslocamentos, divulgar shows, lidar com hospedagem, alimentação, equipamentos, dinheiro e todos os imprevistos que aparecem no caminho. É construir uma rede de pessoas dispostas a receber uma banda em sua cidade e, muitas vezes, confiar que aquela mesma rede estará disponível quando chegar a hora de seguir viagem.

Uma das experiências que melhor representa isso foi a primeira turnê da Vivenciar pelo Sul do Brasil. A banda saiu do Rio de Janeiro de carro em direção a Sapucaia, no Rio Grande do Sul, passando também por Curitiba, Blumenau e Porto Alegre. Para os integrantes, era a primeira vez naquela região do país. Vieram o frio, os perrengues e a felicidade de conhecer lugares e pessoas que até então existiam apenas como nomes em mapas e discos.

Em Porto Alegre, depois de um show na Minor House, ainda era preciso pegar um trem para Sapucaia, onde aconteceria o último show da turnê. Depois da apresentação, veio mais uma espera, dessa vez na estação, aguardando o primeiro trem de volta para Porto Alegre. No meio de toda essa correria, ficou também a lembrança do cuidado e do apoio de quem recebeu a banda.

Anos depois, a Vivenciar faria uma turnê pelo Nordeste passando por Salvador, Aracaju, Maceió, Recife, João Pessoa e Natal. Foram duas semanas que não ficaram restritas aos shows, envolvendo oficinas, conversas e outras atividades.

A turnê do Lumpen também ocupa um espaço especial nessa memória. Levar seis integrantes e mais uma pessoa para acompanhar a banda exigiu uma enorme mobilização. Em uma das etapas, o show aconteceu na Ocupação Machado de Assis, próxima à Central do Brasil, criando um encontro muito especial entre a banda e os moradores. No dia seguinte, veio a Audio Rebel, na Zona Sul, durante um período em que a casa já era praticamente uma segunda casa para a Oxenti. Depois, a banda e integrantes do selo seguiram de Kombi para Volta Redonda, onde Marcelo, o Angú, recebeu todos em sua casa. Vieram ainda shows e atividades em São Paulo, com Krëbo participando também dos vocais em algumas apresentações do Lumpen.

É através dessas experiências que a ideia de circulação ganha sentido. Não é apenas colocar uma banda em uma estrada. É criar relações que continuam depois que o show termina.

Cultura DIY: fazer porque é preciso fazer

E existe um combustível que atravessa os 21 anos da Oxenti, esse combustível é o DIY.

Não como uma palavra bonita usada para definir uma estética, mas como uma necessidade prática. A maior parte das coisas foi construída na base da coragem, da vontade e da tentativa, entre erros e acertos, perrengues, insucessos, suor e criatividade.

Nunca houve muita espera por uma grande iniciativa que trouxesse as condições financeiras ideais para colocar os projetos em prática. Era preciso fazer com aquilo que existia. Produzir, divulgar, organizar, errar, aprender e tentar novamente.

Essa maneira de trabalhar também está presente na própria ideia de produção independente que acompanha o selo desde o começo. O importante muitas vezes não era ter todas as condições necessárias. Era não deixar de fazer.

Cätärro, Lasso, C.O.V.A. HC e Pústula: 21 anos celebrados no palco

É nesse espírito que acontece a próxima celebração.
No dia 10 de outubro de 2026, o Rex Bar, no Jaraguá em Maceió, será palco da Oxenti Records: 21 Anos de Caos e Paixão.

A noite reúne diferentes gerações e territórios do punk e hardcore independente. De Mossoró, no Rio Grande do Norte, vem o Cätärro, trazendo sua mistura de powerviolence e grindcore e retomando uma trajetória construída desde os anos 2000.

De Salvador, chega o Lasso, banda que vem construindo uma trajetória de circulação internacional dentro do hardcore punk e que chega a Maceió apresentando o LP Covarde.

Representando a cena local estão C.O.V.A. HC e Pústula, duas bandas que ajudam a manter viva a intensidade e a diversidade do underground de Alagoas.

São quatro bandas, quatro trajetórias diferentes e uma mesma noite. Mas a escolha dessa programação também diz alguma coisa sobre os 21 anos da Oxenti: a celebração não acontece olhando apenas para o passado. Ela acontece colocando diferentes cenas e gerações novamente em contato.

Mais do que um show: uma noite de cultura independente

A celebração dos 21 anos também foi pensada para além do palco. Durante a noite haverá uma feira de merch independente, reunindo discos, vinis, K7s, camisetas, zines, bottons e outros materiais.

Estarão presentes banquinhas da Solar Discos, Joelho de Velho, The Great Fighter, Uma Colher de Mel, Oxenti Records, além dos materiais das próprias bandas. Também haverá Flash Tattoo com o Studio Tatu.

Esse tipo de espaço sempre fez parte da cultura underground. A banquinha depois do show, a conversa sobre um disco, o zine encontrado por acaso, a camiseta de uma banda, o encontro com alguém que você não via há anos. São coisas pequenas, mas é também através delas que uma cena continua existindo.

Rango vegan

A noite também terá alimentação vegana com Ramburgui e Merken.Veg. A presença da comida vegana acompanha uma relação que a Oxenti vem construindo há muitos anos entre cultura underground, veganismo e produção independente.

Sem precisar transformar toda celebração em manifesto, existe algo bastante natural nessa conexão: criar espaços onde música, alimentação, encontros e diferentes formas de pensar possam coexistir.

Por que celebrar 21 anos?

Vinte e um anos não representam apenas uma quantidade de tempo. Representam tudo aquilo que aconteceu durante esse tempo. Os discos que chegaram pelos Correios. Os shows montados sem saber exatamente como pagar as contas. As viagens. As bandas que confiaram seus trabalhos ao selo. As pessoas que abriram suas casas e seus espaços. As amizades que começaram em uma banquinha. As cidades que passaram a fazer parte da rota. As cenas que se encontraram. Os projetos que deram certo. E também aqueles que não deram.

Celebrar 21 anos é reconhecer que a existência de uma iniciativa independente nunca é resultado de uma única pessoa ou de uma única ação. Um selo como a Oxenti é construído por uma rede. Por bandas, por público, por produtores, por outros selos. Por quem compra um disco, por quem organiza um show, por quem aparece para tocar, por quem abre a porta de um espaço, por quem faz um zine. Por quem mantém uma cena funcionando quando parece que ninguém está olhando.

O que a Oxenti significa hoje?

Adeisvo da Oxenti no muro de Berlim.

Provavelmente essa seja uma das perguntas mais difíceis de responder.
Depois de tanto tempo tocando esse selo, essa marca, essa produtora, muitas vezes fica difícil separar a história da Oxenti da própria história de quem esteve à frente dela.

Uma coisa, porém, parece certa: com tudo o que foi construído ao longo desses anos e com todas as experiências vividas nesse caminho, a Oxenti, assim como o hardcore, foi um dos principais moldadores do caráter e da formação de quem a construiu.

Talvez a Oxenti seja também uma persona criada, mesmo que inconscientemente, para colocar para fora vontades, ideias e algumas loucuras que, sozinho, provavelmente não houvesse coragem para realizar.

Quem sabe não seja isso?

Depois de 21 anos, a Oxenti Records já não é apenas um selo, uma marca ou uma produtora. Ela se tornou uma parte inseparável de uma história pessoal, de uma formação e de uma maneira de enxergar o mundo.

A Oxenti Records é a parte livre e selvagem do espírito.

A história continua

A melhor maneira de olhar para esses 21 anos é entender que eles não representam uma conclusão.

A Oxenti continua sendo construída enquanto novas bandas aparecem, novos discos são gravados, novos shows são organizados e novas conexões são feitas. O underground mudou muito desde 2005. As formas de produzir, divulgar e circular música são outras. Algumas ferramentas desapareceram, outras surgiram. Algumas cenas se transformaram, outras nasceram.

Mas algumas coisas continuam iguais. A vontade de fazer. A necessidade de criar os próprios caminhos. A importância dos encontros. E a certeza de que a música independente continua sendo feita por pessoas que, mesmo sem ter todas as condições, decidem começar.

Talvez seja justamente aí que essas duas histórias, a da Oxenti e a de quem a construiu, tenham se confundido de vez. Porque, depois de 21 anos, já não é tão simples dizer onde termina uma e começa a outra.

E talvez isso também ajude a explicar aquela ideia que atravessou boa parte dessa trajetória: fazer a cultura circular, permitir que uma cena não apenas receba referências, mas também envie as suas, que uma banda possa sair de Maceió e chegar a outros lugares, que uma banda de outro lugar possa chegar aqui, que as experiências possam voltar pelo caminho e que as conexões continuem se multiplicando.

De um centro para outro centro. De uma margem para outra margem. Em todas as direções possíveis.

Em 2026, a Oxenti completa 21 anos.

E a história continua.