Mais de duas décadas depois de surgir em Mossoró, no Rio Grande do Norte, o Cätärro continua fazendo barulho. Às vésperas de voltar a Maceió para celebrar os 21 anos da Oxenti Records, a banda fala sobre o novo EP Acorde Monstro, a memória de Dance Império Dance, o Barulho no Beco, as redes do underground nordestino, as turnês e os vínculos que fizeram a banda atravessar mais de 20 anos sem deixar de ser uma banda de amigos.
O Cätärro começou em Mossoró em 2003 e construiu sua trajetória dentro de uma lógica que talvez seja mais fácil de compreender olhando para as redes do que para os centros. Shows, selos, intercâmbios, amizades, viagens, casas, becos e coletivos foram formando uma espécie de circuito subterrâneo que conectava cidades brasileiras e, eventualmente, diferentes partes do mundo.
A discografia da banda registra parte desse caminho. Depois da demo Pena de Morte (2004), do split Thrashit! (2006), de Dance Império Dance (2008), Insônia (2013) e outros lançamentos, o Cätärro chega a 2026 com Acorde Monstro, um EP de quatro faixas que funciona também como uma prévia de um projeto maior, com 18 músicas em processo de conclusão.
No dia 10 de outubro, a banda estará em Maceió para o show de 21 anos da Oxenti Records, no Rex Bar, ao lado de Lasso, C.O.V.A. e Pústula.
Conversamos com Luiz Teotonio e Pedro Medeiros sobre o novo trabalho, a trajetória do Cätärro, a cena de Mossoró, o Barulho no Beco, as experiências fora do Brasil e a relação construída ao longo dos anos com a Oxenti Records.
Acorde Monstro
Depois de mais de duas décadas, o que fez o Cätärro voltar ao estúdio?
Cätärro / Luiz: Esse disco é uma forma de exorcizar sentimentos sombrios e conflitantes que nos atravessaram de diversas formas durante todo o percurso da banda.
O título Acorde Monstro é forte e combina bastante com a história do Cätärro. O que existe por trás desse nome?
Cätärro / Luiz: O nome do disco, para mim, remete justamente ao regurgitar desses sentimentos. Sentimentos conflitantes criam músicas monstruosas, notas dissonantes, essas coisas, sabe?
O EP tem quatro músicas e mantém aquela característica do Cätärro de trabalhar com faixas extremamente curtas. O que mudou na forma de compor e gravar desde os primeiros registros até Acorde Monstro?
Cätärro / Luiz: Esse EP é uma prévia de um projeto maior, que tem 18 músicas e está em fase de conclusão. Falando especificamente do EP, eu acho que ele mantém nossa pegada já característica em outros materiais, mas agora um pouco mais pesado.
Ouvindo Acorde Monstro ao lado dos trabalhos antigos, o que vocês identificam como “Cätärro de sempre” e o que representa uma mudança?
Cätärro / Luiz: Entre nós, brincamos que nosso som sempre vai ter punk rock e blastbeat, e aí a gente vai misturando esses dois elementos com outras pegadas, umas quebras meio malucas e vai moldando a coisa.
De Dance Império Dance a Acorde Monstro
Em 2008, o Cätärro lançou Dance Império Dance, um dos registros mais conhecidos da trajetória da banda. O disco aparece hoje no catálogo da própria Oxenti Records e ajuda a contar uma parte da história que conecta o Cätärro ao selo.
Quase duas décadas depois, Acorde Monstro encontra a banda em outro momento, mas sem abandonar alguns dos elementos que ajudaram a construir sua identidade.
O que Dance Império Dance representa para vocês hoje?
Cätärro / Luiz: Cara, esse disco é muito importante pra gente. Conseguimos parcerias com selos de todo país e com ele ampliamos amizades. Saímos de Mossoró pra uma turnê de quase um mês, que passou por estados do Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país.
Se Dance Império Dance registra um determinado momento do Cätärro, o que Acorde Monstro diz sobre a banda hoje?
Cätärro / Luiz: Esse disco, acho, traz uma versão mais madura, intimista e introspectiva em suas letras, somada a uma sonoridade rápida e mais pesada.
Existe alguma coisa daquele Cätärro de 2008 que vocês conscientemente quiseram recuperar no novo EP?
Cätärro / Luiz: Uma vez uma amiga falou que o Cätärro era uma das bandas que ela já tinha visto ao vivo e que sentia a mesma energia ouvindo um disco. Então espero que esse novo material continue levando essa mesma energia.
Mossoró, Barulho no Beco e as redes do Nordeste
É difícil falar da trajetória do Cätärro sem falar de Mossoró e, principalmente, do Barulho no Beco.
Mais do que um espaço físico, o Beco das Frutas aparece na memória da banda como um lugar de encontro, organização e construção coletiva. Foi por ali que passaram bandas brasileiras e estrangeiras e que o Cätärro estabeleceu parte das conexões que atravessariam sua trajetória.
O Cätärro nasceu em Mossoró em 2003. Quando vocês olham para aquela cena hoje, quais pessoas, bandas, espaços e iniciativas consideram fundamentais para entender a história da banda?
Cätärro / Pedro: Crimes Pela Juventude (ES), Kakalaki Thrash Crew (CE), Areia nos Olhos (SE), os malucos do interior do RN, a rede subterrânea de bandas e coletivos do Brasil.
A gente teve a sorte de nascer numa época que nos possibilitou tocar com as nossas bandas favoritas. Discarga, I Shot Cyrus, Triste Fim de Rosilene, Vingança, Raça Odiada, Diagnose, Frattelli, Chuck Norris, Morto Pela Escola, XReverX, Mais Treta, Facada, Shit and Run, Skate Pirata, Lei do Cão… dá pra passar horas listando e pirando!
O Nordeste possui cenas muito diferentes entre si, mas também uma história de intercâmbios e conexões entre cidades. Que papel essas redes tiveram na trajetória do Cätärro?
Cätärro / Pedro: Cätärro é cria e ao mesmo tempo criador do Barulho no Beco.
A história da banda é totalmente atravessada pelo Beco das Frutas e as ideias de organização e coletividade que a gente aprendeu ali, fazendo juntos. Por esse canal a gente recebeu bandas e coletivos do Brasil inteiro, inclusive galera do Conquest for Death (EUA), Sete Star Sept (Japão) e Zibabu (Holanda).
Era quase um portal que nos conectava com o esgoto universal.
Existe uma tendência de contar a história da música independente brasileira a partir de poucos centros. O que vocês acham que fica de fora quando a gente olha para essa história a partir de Mossoró e de outras cidades nordestinas?
Cätärro / Pedro: A gente amava conhecer bandas e pessoas de todo canto do Brasil e de fora também. Mas eu sinto que a gente sempre valorizou muito o que a gente estava vivendo e criando juntos.
Para nós, naquele momento ali era o centro do mundo. Existia um toque de encantamento que nos movia.
E até acredito que hoje acessamos esse lugar, o que nos faz, com 40 anos de idade, seguir envolvidos com isso.
DIY: de necessidade a escolha
A primeira demo do Cätärro ajuda a dimensionar o que significava fazer música independente no começo dos anos 2000. Antes de plataformas digitais, redes sociais e ferramentas de distribuição instantânea, lançar uma demo podia significar desenhar uma capa, xerocar, recortar, colar e encontrar alguma maneira de fazer aquilo circular.
Hoje, a tecnologia mudou o caminho. A escolha pelo fazer independente, porém, continua.
Desde o começo, o Cätärro construiu sua trajetória através de shows, selos, intercâmbios e circulação independente. O que o DIY significava para vocês em 2003 e o que significa hoje?
Cätärro / Pedro: DIY era a única forma possível de fazer as coisas acontecerem.
Nossa primeira demo era uma caveira desenhada à mão, xerocada, colada num pedaço de cartolina. Essa era a única forma possível de lançar um disco.
Hoje, fazer as coisas de forma artesanal e livre é nossa opção porque nos dá prazer fazer assim. A gente gosta de criar nossos meios de forma autônoma.
Vocês atravessaram o Brasil e também tocaram fora do país. O que essas viagens ensinaram sobre as diferentes cenas encontradas pelo caminho?
Cätärro / Pedro: Cada lugar que a gente visitou mostrou um mundo novo. Cada estado do Brasil mostra uma realidade tão distinta uma da outra. Na forma de compor uma música, na hospitalidade e na própria entrega que as pessoas dedicam a esse submundo.
Para mim, talvez o maior baque tenha sido transitar por diferentes países da Europa. Foi incrível tocar em squats e festivais com bandas lendárias e aparelhagens sonoras impecáveis.
Mas o encantamento por estar num lugar onde tudo funciona foi igualmente proporcional à revolta por estar onde tudo funciona. Porque isso me ligou diretamente ao lugar de onde eu vim.
E estar nesse lugar me fez entender com a minha própria pele o porquê de as coisas não funcionarem na periferia do mundo.
Hoje existe internet, streaming e redes sociais. Por outro lado, ainda existe uma importância enorme no contato direto, nos shows, nos selos e na circulação física. O que vocês acham que mudou de verdade?
Cätärro / Pedro: Na hora que eu estou com Aninho, Fernando e Xopô cantando essas músicas que a gente já canta há décadas, eu estou ressuscitando e mantendo vivo o Pedro adolescente rebelde que encontrou um sentido na vida no meio desse caos chamado punk.
A catarse que esse encontro me provoca não é alcançada por nenhuma evolução tecnológica.
Cätärro e Oxenti Records
Existe uma parte dessa história que, para nós, merece ser contada de maneira especial.
Cätärro e Oxenti não são apenas duas iniciativas que eventualmente dividiram um lançamento ou organizaram um show. Ao longo dos anos, a relação foi se transformando em amizade, parceria, circulação e rede de apoio.
É uma história que atravessa Mossoró, Maceió, Rio de Janeiro, shows, lançamentos e viagens.
Vocês lembram quando a história do Cätärro se cruza pela primeira vez com a história da Oxenti Records?
Cätärro / Pedro: Lembro de tudo. De todos os nossos contatos. Da nossa felicidade em conhecer o Rio de Janeiro. Dos lançamentos em conjunto, dos shows em Botafogo e em Maceió.
O Cätärro só faz sentido ainda porque a Oxenti Records faz sentido ainda.
O que essa parceria representa para vocês, olhando para todos esses anos?
Cätärro / Pedro: Sinto que somos essa extensão.
Quando a gente vai pra Maceió e Aracaju, por exemplo, a gente está indo pra casa encontrar com nossos irmãos.
A gente simplesmente não percebe sentido existir sem vocês, que, além de comunidade contracultural, são também amigos e rede de apoio.
Para mim, particularmente, nada disso faria sentido se esses vínculos não fossem laços de amizade e fraternidade.
Ter banda e fazer turnê sempre foi trabalhoso. Ainda dá muito trabalho. A gente só conseguiu atravessar décadas fazendo isso porque a gente nunca esteve só.
A Oxenti está chegando aos 21 anos. Quando vocês olham para a trajetória do selo e para a própria trajetória do Cätärro, quais mudanças percebem no underground nordestino?
Cätärro / Pedro: Eu não sei.
Eu gosto de pensar que o Cätärro são quatro amigos que gostam de fazer barulho e tocam por aí.
Talvez o entendimento do que é underground ou mesmo Nordeste seja subjetivo demais. Não quero estender essa resposta num tratado filosófico, mas, pra mim, a gente tá com mais de 20 anos de banda porque a gente curte viajar, ficar juntos e reencontrar nossos amigos.
A gente sempre teve questões existenciais e políticas ligadas à nossa forma de ser e de se relacionar com o mundo.
Então, se eu tivesse que apontar mudança, seria que estamos mais velhos, alguns de nós tiveram filhos, uma galera foi embora, alguns infelizmente morreram, mas, em essência, eu sinto que é a mesma coisa.
10 de outubro: Cätärro em Maceió
O reencontro acontece no dia 10 de outubro, no Rex Bar, em Jaraguá. A noite reúne Cätärro, Lasso, C.O.V.A. e Pústula para celebrar os 21 anos da Oxenti Records.
Para o Cätärro, porém, não é simplesmente mais uma data na agenda.
É um retorno para um lugar que, na fala da própria banda, já virou casa.
O que significa participar da celebração dos 21 anos da Oxenti?
Cätärro/ Luiz: Cara, pra gente, é algo muito empolgante participar dessa celebração.
Significa que, de diversas formas possíveis, estamos vivos e compartilhando bons momentos e experiências com pessoas que sempre apoiamos suas iniciativas e também nos apoiaram.
Depois de mais de 20 anos de Cätärro, o que ainda faz vocês quererem subir ao palco e tocar essas músicas?
Cätärro / Pedro: Eu sinto a mesma vontade que sentia em 2003. Sinto o mesmo tesão de tocar nossos sons.
E hoje eu analiso que o Cätärro é, pra mim, um mecanismo de autorregulação da minha mente.
Se ainda tem gente que quer escutar, a gente quer ainda dizer.
“Cätärro é medicina”
Talvez seja difícil encontrar uma maneira melhor de terminar uma conversa sobre uma banda que atravessou mais de 20 anos do que deixar a própria banda falar.
Perguntamos o que eles diriam ao Cätärro de Mossoró de 2003, se pudessem encontrar aquela banda por alguns minutos.
A resposta não fala de sucesso, longevidade ou reconhecimento.
Fala de sobrevivência.
Se vocês pudessem encontrar o Cätärro de Mossoró de 2003 por alguns minutos, o que diriam para aquela banda?
Cätärro / Pedro: Ninguém previu isso.
E, se anteviu, nunca colocou com essas palavras:
“Cätärro é medicina. Essa loucura que produz esse som demoníaco, com nome de gosma verde nojenta, é um remédio que vai ajudar você a não enlouquecer.”
Talvez seja exatamente por isso que uma banda como o Cätärro continue existindo.
Não porque tenha encontrado uma fórmula para permanecer relevante, nem porque tenha seguido um plano de carreira.
Mas porque, em algum momento, quatro pessoas encontraram no barulho uma maneira de estar juntas no mundo.
Mais de vinte anos depois, continuam fazendo isso.
E no dia 10 de outubro, esse barulho encontra novamente a Oxenti Records em Maceió.
Cätärro + Lasso + C.O.V.A. + Pústula
Oxenti Records 21 anos
10/10 — Rex Bar — Jaraguá, Maceió/AL
Garanta seu ingresso para o show de 21 anos da Oxenti Records.
